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Quem faz algo realmente
diferente no cenário musical hoje em dia? Ninguém,
vai dizer o leitor ranzinza, e pode até ter certa razão.
Afinal, o mainstream nunca foi o melhor lugar para a criatividade,
e os nomes que hoje ocupam manchetes e paradas no segmento "rock"
(virou segmento, veja só...) são, na melhor das hipóteses,
interessantes repetições de fórmulas que estão
quase exauridas.
Porém, sempre houve (e é fácil crer que sempre
haverá) gente que não se conforma com a letargia vigente
e desafia a inércia jogando o movimento de suas mentes para
sua arte. Claro que nenhuma criação é feito
a partir do zero, mas é perfeitamente possível inovar
com informações já existentes e obter um resultado
de qualidade, empolgante e inclassificável.
No Brasil, uma dasc bandas que consegue essa façanha é
o quarteto paulistano Diagonal. São chamados de "jazz
hardcore", "post-rock", "post-hardcore"
(argh!), "atonalistas nervosos" e, pior de todos, "herdeiros
do Fugazi". O primeiro álbum, Detouring Track (2001),
poderia sugerir essa semelhança em uma ou outra faixa, mas
desde essa época já estava gritante a diferente proposta
da banda. Model To Deceive, lançado em 2003 pela Highlight
Sounds, vai além e cria sonoridades onde qualquer definição
entra flácida e vazia.
Distante de qualquer possibilidade comercial, O Diagonal parece
irremediavelmente restrito ao underground. Mas você é
do tipo que ainda tem a necessidade de ouvir música que leve
suas sinapses a outro estágio, Model To Deceive é
audição obrigatória, do tipo que figura como
item merecedor de especial atenção na sua estante.
Sérgio Ugeda, guitarrista e segundo vocalista da banda, abriu
sua caixa postal às perguntas do Lado 1 e tentou explicar
porque a banda se mantém ousada num circuito onde suas perspectivas
são pequenas.
Lado 1 - O
que é "Model To Deceive"?
Sérgio - É um título apropriado para o nosso
segundo álbum. A idéia toda foi do Cláudio,
tendo como base sua letra homônima que encerra o disco. Na
minha opinião, é uma expressão que reflete
bem o momento da gravação do disco. A idéia
de um engano, de ser enganar as pessoas... Mas não tenho
certeza. Posso estar enganado.
Tanto "Detouring
Track" quanto "Model To Deceive" são álbuns
conceituais. O que vem antes, as composições ou o
conceito?
Na verdade, não acredito que os álbuns possuam qualquer
conceito pré-estipulado. Acho que é o tipo de coisa
que você enxerga se você quiser, se procurar. Todas
as músicas foram compostas e escritas de uma forma bem ocasional.
Mas, por outro lado, entendo as composições como conceituais
– sempre há uma história ou, no mínimo, uma
boa piada por trás das nossas músicas. Deste modo
cabe a quem escuta prestar apenas atenção. mas, respondendo
a pergunta, acho que independente do conceito que você é
capaz de enxergar nos discos, as composições vem antes.
A associação
repetitiva entre o som de vocês e o do Fugazi incomoda?
Eu não diria que é a associação que
incomoda mas o raciocínio embutido nela, que usualmente leva
as pessoas a afirmar que somos excessivamente influenciados por
eles. Acho uma grande besteira, apesar de considerar o Fugazi uma
das melhores referências contemporâneas na música
atual. Mas não é como se bastasse ouvir uma música
deles para compor outra do Diagonal. Isso coloca a nossa criatividade
subestimada através de um estigma estúpido e é
apenas isso que me incomoda.
Quais seriam
suas influências então?
Optando por clássicos: Beatles, King Crimson e Led Zeppelin.
Essa impossibilidade
de rotular a banda funciona contra ou a favor de vocês?
Os dois. Tudo é absolutamente passível de rótulos.
De vez em quando aparece um melhor que o outro. Colocar um rótulo
sobre uma banda, na minha opinião, gera dois efeitos ligeiramente
distintos: 1) Alguém que nunca ouviu consegue ter uma opinião
formada e passar o resto de sua vida criticando sem nem mesmo saber
do que está falando e 2 ) Alguém que se interessa
por gêneros musicais muito específicos acaba se interessando
porque vê ali uma identificação baseada no que
já conhecia previamente. Independente destes efeitos, para
mim é a impressão de quem escuta o Diagonal sem nada
na cabeça que eu valorizo acima de tudo. E é a sua
definição procurando concluir o nosso som, é
no rótulo que surge então que eu presto atenção,
é o que torna gratificante todo o esforço que investimos
nas músicas. A resposta de quem se identifica de algum modo
com as nossas músicas e, principalmente, com os nossos shows,
esquecendo ainda por um momento convenções e referências.
Vocês
concordam com quem costuma estabelecer similaridades entre vocês
e o Hurtmold?
Acho que sim, apesar de estarmos interessados em propostas sonoras
completamente diferentes. Mas enfim... Somos amigos, gravamos nossos
respectivos dois discos no mesmo estúdio, moramos em São
Paulo, o Mauricio foi o primeiro baixista do Diagonal... Acho compreensível.
E fico até satisfeito, já que o Hurtmold é
um grupo excepcional. Pior seria se estabelecessem similaridades
com o Fugazi, não acha?
Vocês
tocam sem cobrar cachê, cantam em inglês e não
compõem dentro de nenhuma estrutura comercial. Imagino que
o grande mercado ou o enriquecimento pela música não
sejam preocupações de vocês.
Bem, é muito complicado. Eu prefiro nem parar para pensar
muito a respeito porque, caso o faça, vou chegar na conclusão
meio óbvia de que não existe o menor sentido em tocar
nas condições que normalmente nos sujeitamos. Para
que a gente continue tocando e conquistando no muque a atenção
de poucas pessoas, é melhor deixar esse assunto de lado...
Fazemos todo esse trabalho por amor mesmo, pela convicção
em nossas próprias idéias. E as concessões
que devem ser feitas atrás do enriquecimento e do grande
mercado estão completamente fora de cogitação.
Já sobre cantar em inglês, eu nunca fui absolutamente
favorável. Quando formamos o grupo e estávamos fazendo
as músicas de “Detouring Track” foi convencionado desta forma
e ponto final. Antes do Diagonal eu só escrevia letras em
português e, bem... Compor em inglês foi uma experiência
interessante. Escrevi cinco das dez letras neste álbum. Já
em “Model to Deceive” foi diferente. Eu insisti para que escrevêssemos
em português e, até por algum tempo, era o que iríamos
fazer. De última hora, devido a muitas brigas e discussões
marcamos a gravação com urgência e acabamos
voltamos atrás, com o Cláudio escrevendo muito rapidamente
todas as letras (com exceção de “Smear Campaign”,
que é minha). Eu não tive muito interesse de voltar
a escrever e cantar em inglês. Nem mesmo a que escrevi. Ela
apenas saiu, eu não fiz muito esforço para escrever.
Acabei fazendo apenas pequenas participações vocais...
Até porque chegamos à brilhante conclusão de
que a minha voz é uma porcaria e tentamos dar ênfase
no Cláudio como vocalista. O resultado foi muito bom. O problema
é que até gosto de cantar...
Mas posso adiantar que a partir do próximo álbum vamos
passar a compor em português. Só ainda não sabemos
como e muito menos quando. Não necessariamente atrás
de enriquecimento, mesmo porque seria muita ingenuidade sequer considerar
tal hipótese diante da realidade. Mas o fato é que
escrever em inglês é muito prático (para não
dizer fácil, extremamente fácil para você, eu
e todo mundo cantar junto), embora todas as letras do Diagonal tenham
um conteúdo altamente crítico, especialmente as do
Cláudio.

Vocês
também não se identificam nos discos, nem mesmo com
a nomeação da formação. Isso é
redundante para vocês?
Mais ou menos. Acho
que a idéia foi minha, no início. Não sei se
é uma boa idéia assim como outras coisas que acabei
fazendo no encarte dos cds como, por exemplo, a “fonte” utilizada
no encarte de “Detouring Track”. Foi uma piada infeliz, mal contada
e sem graça. Rendeu ótimas risadas na hora e ainda
rende, apesar de ser até trágico. Mas foi o que acabou
sendo feito. Sobre a identificação, eu queria evitar
a associação pessoal: “Oi, eu sou o Wilson, etc...”
mas descobri que é inútil e até desnecessário
se preocupar com isso. Hoje, olhando para trás, eu gostaria
que os encartes tivessem sido feitos com calma e sem minha interferência.
Sou muito chato e incapaz de agir com objetividade a respeito desse
tipo de coisa.
Mesmo sem esse
lado "assimilável", a banda já lançou
dois discos e faz muitos shows. Qual é o público de
vocês?
Para falar a verdade,
não fazemos muitos shows. Estamos começando a enfrentar
seriamente o problema que é se apresentar driblando nossas
respectivas agendas e compromissos alheios para qualquer um disposto
a prestar atenção em nossas músicas. Sobre
o público, normalmente ele aparece meio sem querer ou por
algum outro motivo nos nossos shows e, de modo geral, estão
bêbados.
Qual é a motivação e o prazer de seguir
nesse circuito?
A de responder pelo
que queremos fazer e simplesmente fazemos, não prestando
atenção em opiniões externas e não admitindo
qualquer interferência no nosso trabalho.
E as dificuldades?
Tempo, dinheiro, distância,
mulheres, sono… Isso pode levar dias…
Resenha - MODEL
TO DECEIVE
O som que você nunca ouviria
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Os rótulos são
sempre bisonhos. As referências são pífias.
Os shows, escassos. Como alguém, mesmo aquele dedicado garimpeiro
de boa música, poderia chegar ao som do Diagonal? Se a entrevista
e a introdução do texto lhe convenceram, você
pode encomendar Model To Deceive no site da gravadora da banda (www.highlightsounds.com.br).
Caso você ainda ache que tudo isso é papo de resenhista
desocupado da Web, dê chance a mais uma tentativa de englobar
o insofismável.
Críticos e fãs (sim, eles existem) costumam destacar
a habilidade musical do quarteto, mas a verdade é que Claudio
Duarte (voz e guitarra), Sergio Ugeda (guitarra e voz), Renato Ferreira
(baixo) e Richard Puerto Ribeiro (bateria) estão a anos-luz
de serem virtuoses. O que eles buscam é explorar todos os
recursos e possibilidades de seus instrumentos, sem ficar desfilando
seqüências complexas de notas e acordes.
Isso já joga por terra todo o cabecismo empregado (inclusive
nesse texto) para definir a banda. O Diagonal é muito mais
instintivo que lógico, não compõe partindo
de raciocínios lógicos. Suas batidas quebradas e os
vocais ora berrados já proporcionaram a odiada comparação
com o Fugazi, alguém já associou a manipulação
das guitarras ao som dos primórdios do Gang Of Four (e eles
não renegam a influência do mítico Andy Gill,
guitarrista que forjou o som da Gang) e a própria banda destaca
a importância do King Crimson em sua formação
musical. Mas será que esses caras, que engatam longas conversas
sobre futebol antes de um show, desprezam o fascínio da internet
(precisei explicar ao Claudio o que era um blog) e planejam ensaios
e shows levando em conta a opinião de namoradas podem ser
encaixados no estereótipo "nerd-cabeção-indie"?
Definitivamente não, e sua música entra no mesmo espírito
imprevisível. Claro que não é uma anarquia
desmedida. Várias faixas têm até refrão
(e dos bons!), coisa que praticamente não acontecia em Detouring
Track. Algumas, como a pulsante "Chinese Chess" e o psico-pop-blues-rock-setentista
"Wordshelves", penetram em cada célula dormente
do cérebro e despertam até atitudes censuráveis,
como tocar air drums ou arriscar uma dança espasmódica.
Para não falar em "Pause Of The Rock", monumento
pop experimental encharcado de influências póp-punk
e com cara de hit pessoal eterno.
Da primeira à última faixa, a sensação
é de que um novo jazz está sendo inventado, uma música
livre e cheia de inventividade e improvisos, baseada na criatividade
e na certeza de não haver nenhum outro compromisso a não
ser com a vontade de seus criadores. O único senão
ficaria por conta dos vocais, cantados numa língua parecida
com o inglês, não fosse o fato da voz soar também
como um instrumento, uma adição à idéia
musical, e não necessariamente uma letra a ser cantada.
Model To Deceive é um daqueles discões que poucos
ouvirão, muitos falarão bobagens a respeito e depois
será citado como algo que ninguém ouviu mas deveria
tê-lo feito. Não, não é como essas "maravilhas"
independentes eleitas pela crítica como bola da vez, tampouco
é "imperdível" como aquelas porcarias underground
dos anos 80 (Fellini, DeFalla, etc). Seja esperto e dê esse
disco de presente para seus ouvidos e seus neurônios.