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:: DIAGONAL ::
por leonardo vinhas

Quem faz algo realmente diferente no cenário musical hoje em dia? Ninguém, vai dizer o leitor ranzinza, e pode até ter certa razão. Afinal, o mainstream nunca foi o melhor lugar para a criatividade, e os nomes que hoje ocupam manchetes e paradas no segmento "rock" (virou segmento, veja só...) são, na melhor das hipóteses, interessantes repetições de fórmulas que estão quase exauridas.
Porém, sempre houve (e é fácil crer que sempre haverá) gente que não se conforma com a letargia vigente e desafia a inércia jogando o movimento de suas mentes para sua arte. Claro que nenhuma criação é feito a partir do zero, mas é perfeitamente possível inovar com informações já existentes e obter um resultado de qualidade, empolgante e inclassificável.
No Brasil, uma dasc bandas que consegue essa façanha é o quarteto paulistano Diagonal. São chamados de "jazz hardcore", "post-rock", "post-hardcore" (argh!), "atonalistas nervosos" e, pior de todos, "herdeiros do Fugazi". O primeiro álbum, Detouring Track (2001), poderia sugerir essa semelhança em uma ou outra faixa, mas desde essa época já estava gritante a diferente proposta da banda. Model To Deceive, lançado em 2003 pela Highlight Sounds, vai além e cria sonoridades onde qualquer definição entra flácida e vazia.
Distante de qualquer possibilidade comercial, O Diagonal parece irremediavelmente restrito ao underground. Mas você é do tipo que ainda tem a necessidade de ouvir música que leve suas sinapses a outro estágio, Model To Deceive é audição obrigatória, do tipo que figura como item merecedor de especial atenção na sua estante.
Sérgio Ugeda, guitarrista e segundo vocalista da banda, abriu sua caixa postal às perguntas do Lado 1 e tentou explicar porque a banda se mantém ousada num circuito onde suas perspectivas são pequenas.

Lado 1 - O que é "Model To Deceive"?
Sérgio - É um título apropriado para o nosso segundo álbum. A idéia toda foi do Cláudio, tendo como base sua letra homônima que encerra o disco. Na minha opinião, é uma expressão que reflete bem o momento da gravação do disco. A idéia de um engano, de ser enganar as pessoas... Mas não tenho certeza. Posso estar enganado.

Tanto "Detouring Track" quanto "Model To Deceive" são álbuns conceituais. O que vem antes, as composições ou o conceito?
Na verdade, não acredito que os álbuns possuam qualquer conceito pré-estipulado. Acho que é o tipo de coisa que você enxerga se você quiser, se procurar. Todas as músicas foram compostas e escritas de uma forma bem ocasional. Mas, por outro lado, entendo as composições como conceituais – sempre há uma história ou, no mínimo, uma boa piada por trás das nossas músicas. Deste modo cabe a quem escuta prestar apenas atenção. mas, respondendo a pergunta, acho que independente do conceito que você é capaz de enxergar nos discos, as composições vem antes.

A associação repetitiva entre o som de vocês e o do Fugazi incomoda?
Eu não diria que é a associação que incomoda mas o raciocínio embutido nela, que usualmente leva as pessoas a afirmar que somos excessivamente influenciados por eles. Acho uma grande besteira, apesar de considerar o Fugazi uma das melhores referências contemporâneas na música atual. Mas não é como se bastasse ouvir uma música deles para compor outra do Diagonal. Isso coloca a nossa criatividade subestimada através de um estigma estúpido e é apenas isso que me incomoda.

Quais seriam suas influências então?
Optando por clássicos: Beatles, King Crimson e Led Zeppelin.

Essa impossibilidade de rotular a banda funciona contra ou a favor de vocês?
Os dois. Tudo é absolutamente passível de rótulos. De vez em quando aparece um melhor que o outro. Colocar um rótulo sobre uma banda, na minha opinião, gera dois efeitos ligeiramente distintos: 1) Alguém que nunca ouviu consegue ter uma opinião formada e passar o resto de sua vida criticando sem nem mesmo saber do que está falando e 2 ) Alguém que se interessa por gêneros musicais muito específicos acaba se interessando porque vê ali uma identificação baseada no que já conhecia previamente. Independente destes efeitos, para mim é a impressão de quem escuta o Diagonal sem nada na cabeça que eu valorizo acima de tudo. E é a sua definição procurando concluir o nosso som, é no rótulo que surge então que eu presto atenção, é o que torna gratificante todo o esforço que investimos nas músicas. A resposta de quem se identifica de algum modo com as nossas músicas e, principalmente, com os nossos shows, esquecendo ainda por um momento convenções e referências.

Vocês concordam com quem costuma estabelecer similaridades entre vocês e o Hurtmold?
Acho que sim, apesar de estarmos interessados em propostas sonoras completamente diferentes. Mas enfim... Somos amigos, gravamos nossos respectivos dois discos no mesmo estúdio, moramos em São Paulo, o Mauricio foi o primeiro baixista do Diagonal... Acho compreensível. E fico até satisfeito, já que o Hurtmold é um grupo excepcional. Pior seria se estabelecessem similaridades com o Fugazi, não acha?

Vocês tocam sem cobrar cachê, cantam em inglês e não compõem dentro de nenhuma estrutura comercial. Imagino que o grande mercado ou o enriquecimento pela música não sejam preocupações de vocês.
Bem, é muito complicado. Eu prefiro nem parar para pensar muito a respeito porque, caso o faça, vou chegar na conclusão meio óbvia de que não existe o menor sentido em tocar nas condições que normalmente nos sujeitamos. Para que a gente continue tocando e conquistando no muque a atenção de poucas pessoas, é melhor deixar esse assunto de lado... Fazemos todo esse trabalho por amor mesmo, pela convicção em nossas próprias idéias. E as concessões que devem ser feitas atrás do enriquecimento e do grande mercado estão completamente fora de cogitação.
Já sobre cantar em inglês, eu nunca fui absolutamente favorável. Quando formamos o grupo e estávamos fazendo as músicas de “Detouring Track” foi convencionado desta forma e ponto final. Antes do Diagonal eu só escrevia letras em português e, bem... Compor em inglês foi uma experiência interessante. Escrevi cinco das dez letras neste álbum. Já em “Model to Deceive” foi diferente. Eu insisti para que escrevêssemos em português e, até por algum tempo, era o que iríamos fazer. De última hora, devido a muitas brigas e discussões marcamos a gravação com urgência e acabamos voltamos atrás, com o Cláudio escrevendo muito rapidamente todas as letras (com exceção de “Smear Campaign”, que é minha). Eu não tive muito interesse de voltar a escrever e cantar em inglês. Nem mesmo a que escrevi. Ela apenas saiu, eu não fiz muito esforço para escrever. Acabei fazendo apenas pequenas participações vocais... Até porque chegamos à brilhante conclusão de que a minha voz é uma porcaria e tentamos dar ênfase no Cláudio como vocalista. O resultado foi muito bom. O problema é que até gosto de cantar...
Mas posso adiantar que a partir do próximo álbum vamos passar a compor em português. Só ainda não sabemos como e muito menos quando. Não necessariamente atrás de enriquecimento, mesmo porque seria muita ingenuidade sequer considerar tal hipótese diante da realidade. Mas o fato é que escrever em inglês é muito prático (para não dizer fácil, extremamente fácil para você, eu e todo mundo cantar junto), embora todas as letras do Diagonal tenham um conteúdo altamente crítico, especialmente as do Cláudio.

Vocês também não se identificam nos discos, nem mesmo com a nomeação da formação. Isso é redundante para vocês?
Mais ou menos. Acho que a idéia foi minha, no início. Não sei se é uma boa idéia assim como outras coisas que acabei fazendo no encarte dos cds como, por exemplo, a “fonte” utilizada no encarte de “Detouring Track”. Foi uma piada infeliz, mal contada e sem graça. Rendeu ótimas risadas na hora e ainda rende, apesar de ser até trágico. Mas foi o que acabou sendo feito. Sobre a identificação, eu queria evitar a associação pessoal: “Oi, eu sou o Wilson, etc...” mas descobri que é inútil e até desnecessário se preocupar com isso. Hoje, olhando para trás, eu gostaria que os encartes tivessem sido feitos com calma e sem minha interferência. Sou muito chato e incapaz de agir com objetividade a respeito desse tipo de coisa.

Mesmo sem esse lado "assimilável", a banda já lançou dois discos e faz muitos shows. Qual é o público de vocês?
Para falar a verdade, não fazemos muitos shows. Estamos começando a enfrentar seriamente o problema que é se apresentar driblando nossas respectivas agendas e compromissos alheios para qualquer um disposto a prestar atenção em nossas músicas. Sobre o público, normalmente ele aparece meio sem querer ou por algum outro motivo nos nossos shows e, de modo geral, estão bêbados.


Qual é a motivação e o prazer de seguir nesse circuito?
A de responder pelo que queremos fazer e simplesmente fazemos, não prestando atenção em opiniões externas e não admitindo qualquer interferência no nosso trabalho.

E as dificuldades?
Tempo, dinheiro, distância, mulheres, sono… Isso pode levar dias…

Resenha - MODEL TO DECEIVE
O som que você nunca ouviria

Os rótulos são sempre bisonhos. As referências são pífias. Os shows, escassos. Como alguém, mesmo aquele dedicado garimpeiro de boa música, poderia chegar ao som do Diagonal? Se a entrevista e a introdução do texto lhe convenceram, você pode encomendar Model To Deceive no site da gravadora da banda (www.highlightsounds.com.br). Caso você ainda ache que tudo isso é papo de resenhista desocupado da Web, dê chance a mais uma tentativa de englobar o insofismável.
Críticos e fãs (sim, eles existem) costumam destacar a habilidade musical do quarteto, mas a verdade é que Claudio Duarte (voz e guitarra), Sergio Ugeda (guitarra e voz), Renato Ferreira (baixo) e Richard Puerto Ribeiro (bateria) estão a anos-luz de serem virtuoses. O que eles buscam é explorar todos os recursos e possibilidades de seus instrumentos, sem ficar desfilando seqüências complexas de notas e acordes.
Isso já joga por terra todo o cabecismo empregado (inclusive nesse texto) para definir a banda. O Diagonal é muito mais instintivo que lógico, não compõe partindo de raciocínios lógicos. Suas batidas quebradas e os vocais ora berrados já proporcionaram a odiada comparação com o Fugazi, alguém já associou a manipulação das guitarras ao som dos primórdios do Gang Of Four (e eles não renegam a influência do mítico Andy Gill, guitarrista que forjou o som da Gang) e a própria banda destaca a importância do King Crimson em sua formação musical. Mas será que esses caras, que engatam longas conversas sobre futebol antes de um show, desprezam o fascínio da internet (precisei explicar ao Claudio o que era um blog) e planejam ensaios e shows levando em conta a opinião de namoradas podem ser encaixados no estereótipo "nerd-cabeção-indie"?
Definitivamente não, e sua música entra no mesmo espírito imprevisível. Claro que não é uma anarquia desmedida. Várias faixas têm até refrão (e dos bons!), coisa que praticamente não acontecia em Detouring Track. Algumas, como a pulsante "Chinese Chess" e o psico-pop-blues-rock-setentista "Wordshelves", penetram em cada célula dormente do cérebro e despertam até atitudes censuráveis, como tocar air drums ou arriscar uma dança espasmódica. Para não falar em "Pause Of The Rock", monumento pop experimental encharcado de influências póp-punk e com cara de hit pessoal eterno.
Da primeira à última faixa, a sensação é de que um novo jazz está sendo inventado, uma música livre e cheia de inventividade e improvisos, baseada na criatividade e na certeza de não haver nenhum outro compromisso a não ser com a vontade de seus criadores. O único senão ficaria por conta dos vocais, cantados numa língua parecida com o inglês, não fosse o fato da voz soar também como um instrumento, uma adição à idéia musical, e não necessariamente uma letra a ser cantada.
Model To Deceive é um daqueles discões que poucos ouvirão, muitos falarão bobagens a respeito e depois será citado como algo que ninguém ouviu mas deveria tê-lo feito. Não, não é como essas "maravilhas" independentes eleitas pela crítica como bola da vez, tampouco é "imperdível" como aquelas porcarias underground dos anos 80 (Fellini, DeFalla, etc). Seja esperto e dê esse disco de presente para seus ouvidos e seus neurônios.

 

 

 

 

 

 

 

 

desenvolvido por lado 1